(Pesquisa realizada pela Mckinsey em mais de 30 paises )*

Apesar das mudanças significativas  que a tecnologia vem transformando  a maneira como as pessoas fazem compras, realizam transações bancárias e viajam,  na área da saúde os avanços ainda são muito tímidos. A adoção de ferramentas habilitadas digitalmente para diagnóstico, tratamento e gerenciamento, tem sido modesta. Os registros eletrônicos, por exemplo, ainda não fazem parte dos procedimentos de rotina e segundo a pesquisa a adoção dos “ registros médicos eletrônicos”,  variam de apenas 3% na Europa a 35% nos Estados Unidos. A tecnologia em si não é o problema. Muitas tarefas de assistência médica foram automatizadas ou aprimoradas digitalmente nos últimos anos, mas as barreiras para uma transformação digital no setor da saúde mais profunda, não são primordialmente tecnológicas. Em uma entrevista recente, Harold F. Wolf, presidente e CEO da Sociedade de Sistemas de Informação e Gestão em Saúde (HIMSS), considera que a mudança de cultura é o maior obstáculo na transformação digital no setor da saúde. Da mesma forma, nossos colegas da McKinsey descobriram que as três barreiras ao digital mais citadas pelos líderes do setor farmacêutico e de tecnologia médica eram Cultura, Estrutura Organizacional e Governança.

É provável que seja necessário um esforço das lideranças do setor para superar essas barreiras,  através de uma discussão mais profunda das características dos sistemas de saúde e nas oportunidades que se apresentam pela adoção de soluções digitais. A McKinsey realizou uma análise de alto nível em mais de 30 países, onde a adoção de técnicas digitais foram aplicadas com sucesso em grande escala ou permitiram a criação de soluções inovadoras de mercado. Neste artigo, foram analisadas estas jornadas e foram sumarizadas em 6 condições que podem ajudar no caminho de uma transformação digital no setor da – não importando onde o país em que isto ocorra.

1. Os governos têm um papel a desempenhar na motivação da transformação digital no setor da saúde

Os governos tendem a ter relações únicas com seus sistemas de saúde, seja em nível local, regional ou nacional. Entretanto o ponto mais importante  parece ser, as políticas de incentivo para o uso da tecnologia. Por exemplo, a Austrália desenvolveu a Estratégia Nacional de Saúde Digital e estabeleceu o My Health Record como um registro médico para todos os australianos. A Inglaterra estabeleceu órgãos nacionais, como NHS Digital5 e NHSX,  para apoiar e transformar o NHS e assistência social. Enquanto isso, o governo dinamarquês anunciou um investimento em uma plataforma baseada em aplicativos conhecida como Serviço Digital de Classe Mundial (WCDS) que pode ser usado para acessar todos os dados de propriedade pública de cidadãos dinamarqueses e é financiado em conjunto com as autoridades locais por meio do Fundo de Investimento em Tecnologia do país.  No caso dos EUA, o governo introduziu incentivos financeiros para médicos e hospitais na Lei Americana de Recuperação e Reinvestimento de 2009 para encorajar a adoção de registros eletrônicos de saúde.  O governo de Israel também visa promover a presença do país em saúde digital através de subvenções e investimentos e anunciou uma doação de US $ 33 milhões especificamente em biotecnologia e medicina, bem como um investimento planejado de US $ 275 milhões para digitalizar todos os registros pessoais de saúde de um cidadão.

2. Novos processos de credenciamento, pagamento e reembolso podem acelerar com o avanço tecnológico, melhorando a eficiência do sistema.

Como em qualquer mercado, os sistemas de saúde operam com mais eficiência quando os incentivos de cada parte se reforçam mutuamente. À medida que a tecnologia digital muda, os é necessário que também ocorra uma mudança nos modelos de reembolso e credenciamento. Isso pode incluir, por exemplo, a avaliação de novos fornecedores digitais para atendimento de qualidade, utilização de medidas digitais para certificações e de  avaliar novos produtos de software que possam ser classificados como dispositivos médicos. Também pode incluir diretrizes para compartilhamento e proteção de dados entre as partes interessadas e a possibilidade de  créditos de reembolso pela utilização de serviços digitais.

Muitos países já estão desenvolvendo esforços para modernizar as regulamentações relacionadas à tecnologia digital. Por exemplo, a regulamentação recente dos Centros de Serviços Medicare e Medicaid nos Estados Unidos propôs várias mudanças na política. Isso tornaria as informações mais acessíveis aos pacientes por meio de uma interface de programação de aplicativos (API) aberta. Da mesma forma, o NHS Digital na Inglaterra desenvolveu um primeiro conjunto de padrões sobre a interoperabilidade dos sistemas clínicos de TI.  A França também introduziu um novo sistema de reembolso para provedores de telemedicina. De acordo com as novas regras, o sistema reembolsa as consultas de telemedicina no mesmo nível de uma consulta presencial .

Os órgãos reguladores de assistência médica desempenham  também um papel importante na proteção da segurança do paciente. Mas, para melhorar a produtividade da prestação de cuidados de saúde, algumas regulamentações mais antigas precisam ser atualizadas para acomodar a evolução do setor , enquanto outras devem ser descontinuadas.   Além disso, podem ser necessárias mudanças proativas para incentivar os fornecedores a adotarem serviços digitais. Na Suécia, por exemplo, os fornecedores de serviços de tele consultas em cuidados primários, como KRY, Min Doktor e Doktor, estão atendendo pacientes em todo o país usando uma estrutura de reembolso aplicada para facilitar o atendimento de pacientes. A criação de um centro de tele consulta física com profissionais de saúde permite que um player digital atenda remotamente todo o país, permitindo que os pacientes recebam atendimento em áreas onde eles não pagam impostos.

3. Organizações de saúde que promovem a inovação aberta ajudarão a estimular a transformação digital

Vários países estão seguindo o caminho da criação de uma plataforma de inovação aberta – ou ecossistema – em torno de dados de assistência médica aos pacientes, permitindo que os fornecedores  desenvolvam suas próprias interfaces para acessar os dados. Por exemplo, uma parceria de várias organizações, liderada pela Instituição de Seguro Social da Finlândia administrada pelo governo, construiu um conjunto de serviços digitais para o setor social e de saúde. Chamados de Kanta, esses serviços incluem registros de saúde eletrônicos pessoais, um serviço de receita médica, um banco de dados farmacêutico, um repositório de dados do paciente e arquivos. O mais recente conjunto de serviços, My Kanta Pages, é um repositório nacional de dados no qual os cidadãos podem inserir informações sobre sua própria saúde e bem-estar. A arquitetura do sistema é aberta, permitindo que os fornecedores de software desenvolvam suas próprias interfaces para o conteúdo da Kanta. Da mesma forma, o NHS England desenvolveu uma política de arquitetura de API aberta e orientação de suporte.   

Vários outros países desenvolveram plataformas abertas. O OpenTeleHealth da Dinamarca, por exemplo, incentiva o desenvolvimento de novas aplicações por fornecedores terceirizados. Na China, a plataforma aberta AlIgenie da Alibaba Holding e a inteligência artificial (AI) da Tenente  permitem que diferentes fabricantes trabalhem nos sistemas e os adicionem a terceiros  produtos.

4. Os prestadores de serviços de saúde podem se concentrar na geração de “valor” para os pacientes através de melhores processos e agilidade de benefícios.

Alguns setores digitalizaram seus processos como por exemplo os setores de viagens, serviços bancários e entretenimento,  e várias pesquisas incluindo as da McKinsey, evidenciaram que existe uma expectativa pelo qual os consumidores esperam que  a tecnologia possa trazer também  e de forma consistente serviços mais modernos e convenientes para a indústria da saúde. As principais razões que levam os consumidores a preferir serviços digitais são: (a) buscar médicos e conhecer as suas avaliações (b) pagamento das contas de saúde (c) monitorar diariamente métricas de saúde (d) pesquisar hospitais e suas avaliações (e) solicitar a compra de medicamentos (f) pesquisar sobre planos de saúde, entre outros.

Ao mesmo tempo, novos fornecedores emergentes e disruptivos facilitam a transformação, apresentando novas oportunidades ao mercado e gerando demanda por modelos inovadores de prestação de serviços. Por exemplo, o serviço GP At Hand da Babylon Saúde, da Babylon Health, foi pioneiro em tele consultas financiado pelo NHS em Londres, que verifica os sintomas de forma interativa, suportado por IA. A prática aumentou dez vezes o número de assinantes, atendendo às necessidades não satisfeitas e fornecendo um novo “valor” aos consumidores.

5. Lideranças  que investem na combinação certa de habilidades podem ajudar a acelerar e sustentar a transformação digital de longo prazo.

Na década de 1990, a Estônia aproveitou as habilidades transferíveis entre engenheiros aeroespaciais  para construir seu primeiro sistema de governo eletrônico e posteriormente o sistema X-road, uma solução que garante transferências seguras de informações de saúde e outras infraestruturas digitais para serviços públicos. Isso permitiu ao país tenha avançado em termos de nível de maturidade digital, fornecendo uma infraestrutura básica de interconectividade.  A  Babylon Health por exemplo anunciou um investimento adicional de US $ 100 milhões para dobrar sua força de trabalho de pesquisa para desenvolver a próxima geração de tecnologia de saúde com tecnologia AI. A NHS Digital do Reino Unido lançou a Digital Academy, um programa nacional de aprimoramento digital para funcionários de informações do hospital. A secretária de estado de saúde e assistência social do Reino Unido também encomendou uma publicação – a Revisão Topol – para explorar como preparar os serviços de saúde. Força de trabalho, através da educação, para um futuro digital.

É claro que os líderes digitais que fazem investimentos estratégicos no conjunto certo de habilidades da força de trabalho podem estimular avanços tecnológicos. Isto é especialmente importante no setor da saúde, onde os profissionais de saúde são os principais influenciadores dos pacientes. Por exemplo, se os fornecedores devem incentivar a prescrição eletrônica e a ampla adoção de terapias digitais, os médicos devem ter o conjunto de habilidades necessárias para entender os benefícios e as desvantagens de novas tecnologias. Assim, os prestadores de serviços de saúde devem considerar investimentos adicionais em programas de educação e comunicação de força de trabalho para incentivar uma mudança de mentalidade voltada para o digital.

6. As iniciativas podem ser de curto prazo – mas ainda precisam de investimentos de longo prazo.

Organizações e sistemas de saúde que obtiveram melhorias importantes na prestação de cuidados clínicos, nos resultados dos pacientes ou na saúde da população,  ilustram a necessidade de começar com inovações de alto valor agregado e baixo custo. Ainda assim, a adoção de inovação de maior valor agregado não é possível sem investimentos suficientemente substanciais para atingir as metas de desempenho de longo prazo.  Além disso, os orçamentos departamentais descentralizados comuns entre os prestadores de serviços de saúde muitas vezes levam a um sub investimento considerável em tecnologias inovadoras que possam criar benefícios em todo o ciclo de atendimento. Desta forma é recomendável operar com um orçamento central para a inovação com benefícios em todo o sistema. A pesquisa da McKinsey também identificou que as organizações com uma visão de longo prazo superam seus pares. Portanto, um investimento central de longo prazo em tecnologias que transformem o atendimento ao longo de todo o ciclo de cuidados com a saúde  é necessário para alcançar a ambição da transformação digital.  Os sistemas de saúde têm sido incapazes ainda de fechar as atuais lacunas existentes, mesmo com o crescimento dos seus orçamentos. Novas estratégias  e esforços são necessários – e o sucesso é mais provável em sistemas quando todos os interessados ​​estão trabalhando em um ambiente de colaboração.

(*)By Gareth L. Jones, Zinaida Peter, Kristin-Anne Rutter, and Adam Somauroo

Referencia: ttps://www.mckinsey.com/industries/healthcare-systems-and-services/our-insights/promoting-an-overdue-digital-transformation-in-healthcare

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